A Festa de Pentecostes
A Festa de Pentecostes que a Igreja celebra no último domingo do tempo da Páscoa, ou seja, 50 dias depois, tem sua origem e seus fundamentos bíblicos. Ela era uma festa do calendário do povo judeu que, também celebrava os 50 dias após a páscoa. Nesta festa, recordava-se o dia em que Moisés subiu ao monte Sinai e recebeu as tábuas da Lei, contendo os ensinamentos dirigidos ao povo de Israel. Celebrava assim, a aliança do Antigo testamento que o povo estabeleceu com Deus. Para essa festa muitas pessoas vinham de todos os cantos e se reuniam no Templo de Jerusalém.
Foi, portanto, no dia de Pentecostes que, os apóstolos reunidos com Maria no Cenáculo (de portas fechadas) receberam o Espírito Santo como um fogo abrasador, conforme o relato dos Atos dos Apóstolos cap.2, 1-13.
Já o culto ao Espírito Santo, sob a forma de festividade, no sentido que se organizou mais tarde, se formalizou no início da Baixa Idade Média, por volta dos anos 1200, na Itália, com um contemporâneo de São Francisco de Assis, o abade Joaquim de Fiori (morto em 1202), que ensinava que a última fase da história da humanidade seria a do Espírito Santo. Suas idéias se espalharam pela Europa e influenciaram a vida espiritual da época.
A História da Festa do Divino
A origem da Festa de Pentecostes, chamada popularmente de Festa do Divino, como se conhece hoje vem de Portugal no século XIV, com uma celebração estabelecida pela rainha Isabel (1271-1336), canonizada com o nome de Santa Isabel Rainha de Portugal, conhecida pela sua extrema caridade, quando mandou construir uma da igreja dedicada ao Espírito Santo, na cidade de Alencar. Para a inauguração dessa Igreja, toda a corte foi convidada e as ruas se enfeitaram para receber o cortejo real. A devoção se difundiu rapidamente e tornou-se uma das mais populares de Portugal.
Essa festa chegou ao Brasil com os primeiros povoadores portugueses e por seus folguedos se espalhou com facilidade por todas as regiões brasileiras.
Há documentos que confirmam a realização da festa do Divino em diversas localidades brasileiras desde os séculos XVII. É o caso de uma carta do capelão João de Morais Navarro a Rodrigues Cezar de Menezes, então governador da Capitania de São Paulo, datada de 19 de maio de 1723, que se iniciava com as seguintes palavras: "Indo ter à festa do Santíssimo Espírito Santo na Vila de Jundiai" (em "Documentos Avulsos", publicação do Arquivo do Estado).
O Império do Divino
Originalmente, a Festa do Divino constituía-se pelo estabelecimento do Império do Divino, com palanques e coretos, onde se armava o assento do Imperador, uma criança ou adulto escolhido para presidir a festa, com poderes de rei. Tinha o direito, inclusive, de ordenar a libertação dos presos comuns, em certas localidades do Brasil e de Portugal.
Para arrecadar os recursos de organização da festa, fazia-se antecipadamente a Folia do Divino: grupos de cantadores visitavam as casas dos fiéis para pedir donativos e todo tipo de auxílio. Levavam com eles a Bandeira do Divino, ilustrada pela Pomba que simboliza o Espírito Santo e recebida com grande devoção em toda a parte. Essas Folias percorriam grandes regiões, se estendendo por semanas ou meses inteiros.
Para se ter uma idéia do prestígio da Festa do Divino nas mentes dos brasileiros do século 19, o folclorista Câmara Cascudo lembra que o título de "imperador do Brasil",dado a Dom Pedro I e ao seu sucessor Dom Pedro II, foi escolhido em 1822, pelo ministro José Bonifácio, porque o povo estava mais habituado com a figura do imperador (do Divino) do que com a pessoa do rei.
A Festa do Divino atual
A tradição da Festa do Divino se mantém viva ainda hoje em vários Estados brasileiros com características diferentes, mas com muitos elementos de sua originalidade.
Em Bom Jesus da Lapa/Ba, por exemplo, a festa foi estabelecida nos inícios do século XX (década de 20). Segundo informações da professora Ivonildes Melo, o imperador da festa de 2008 foi o 96º da lista.
A festa é dinamizada pela presença de duas cortes reais: o rei cristão e o rei mouro. As cavalhadas representam as batalhas entre mouros e cristãos, por causa do roubo da princesa cristã. Há também, a participação do grupo da caretagem, o grupo da marujada e a presença de uma multidão de romeiros e lapenses. Na parte religiosa da festa, há novenas e missas.
Principais personagens da festa:
O Imperador é o principal personagem da festa do divino. A ele cabe organizar todo o festejo e é ele quem conduz o povo, "seus súditos" para a festa do Divino Espírito Santo. Por isso, ele organiza uma grande e pomposa comitiva da realeza e de todo o povo pra a missa do divino;
O Alferes da Bandeira é o responsável para conduzir a bandeira do divino e faze-la com ela percorra as casas e todos os lugares possíveis. A função da visita das bandeiras é a benção as famílias visitadas e a arrecadação de donativos para a festa em nome do divino.
O Capitão de Mastro é o responsável para levantar o mastro, anunciando o começo das festividades em honra ao divino Espírito Santo. Ele providencia, enfeita, arruma e organiza a procissão e o levantamento do mastro com a bandeira do divino.
O Juiz da matina é o encarregado de convidar o povo, logo cedo, para a festa do divino. Por isso, sua principal função, é fazer a alvorada festiva no alvorecer do dia festivo, convidado todo povo para homenagear o divino.
Sendo assim, a Festa do Divino deve mantida em seu caráter popular e resgatada na sua condição de celebrar a manifestação do Espírito Santo sobre a comunidade reunida e o comprometimento dos cristãos com a transformação da sociedade segundo os critérios divinos.