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Bom Jesus da Lapa | 4 Visitantes Online
Liturgia em questão
Categoria: liturgia
Autor: Pe. Cristovão Doworak, CSsR

Silva: silvaremos@hotmail.com

Olá! Tire-me uma dúvida. Liturgia me parece complexa, às vezes uns dizem uma coisa, outros dizem outras. A IGMR cita uma coisa, os padres dizem que não se pode levar tudo ao pé da letra, etc. Mas o que eu mesmo gostaria de saber se numa reunião de pastoral, de encontro de casais ou outros encontros para catequese ou formação religiosa, em ocasião de fazer a leitura do Evangelho deve-se fazer a introdução “ O Senhor esteja convosco” e depois “Evangelho de Jesus Cristo segundo ...” e quando terminar, os presentes devem responder “Palavra da Salvação”?

Obrigado.

Que a Paz de Cristo esteja contigo

 

 

Caro Amigo, Silva

Obrigado pelo E-mail. Fico feliz em saber que tem gente que procura entender melhor a liturgia, e quando tem dúvidas, pergunta.

De fato a liturgia é bastante complexa. Basta abrir a Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a sagrada Liturgia do Concílio Vaticano II para perceber de quantos elementos ela trata. Assim, no capítulo primeiro ela trata da natureza da liturgia e da sua importância na vida e na missão da Igreja, como também na vida espiritual dos fiéis. Ainda neste primeiro capítulo fala da necessidade de formação litúrgica e da reforma da sagrada liturgia em vista da participação ativa do povo nas celebrações. No capitulo segundo trata da eucaristia e no terceiro dos demais sacramentos e sacramentais. Em seguida, no capítulo quarto o Concílio trata sobre o Ofício Divino, isto é, sobre a Liturgia das Horas, sobre a sua natureza, estrutura celebrativa e participação dos fieis no Ofício. O andamento e as riquezas do Ano Litúrgico são apresentados no capítulo quinto. E os últimos dois capítulos, sexto e sétimo, tratam da música sacra, da arte sacra e das sagradas alfaias. Assim, podemos perceber a amplitude da Liturgia da Igreja.

E por ser uma realidade complexa e ampla, ela precisa ser estudada e aprofundada. Nós não podemos esquecer que a liturgia, além de ser uma celebração viva do Mistério Pascal de Cristo, também é uma ciência. E por isso, necessita de estudos, discussões, debates, investigações e interpretações. Além disso, a Sacrosanctum concilium lembra a Liturgia consta de uma parte imutável, divinamente instituída, e de partes que podem ou até mesmo devem variar se nelas se introduzir algo que não corresponda bem à natureza íntima da própria liturgia ou se estas partes se tornaram menos aptas para expressar esta natureza. Isso indica a necessidade de um estudo sempre mais atualizado e aprofundamentos constantes.    

Quanto à questão por você apresentada podemos dizer o seguinte: estas aclamações, antes de tudo, fazem parte da própria celebração. Elas estão inseridas na Liturgia da Palavra e fazem parte da dinâmica celebrativa deste momento litúrgico. Também este momento celebrativo tem sua especificidade e sua própria natureza. O Elenco das Leituras da Missa afirma: “Por meio da própria Palavra de Deus, transmitida por escrito, que Deus continua falando a seu povo, e mediante o uso constante da Sagrada Escritura, o povo de Deus se faz mais dócil ao Espírito Santo por meio da luz da fé e assim pode dar ao mundo, com sua vida e seus costumes, o testemunho de Cristo” (ELM, 12). A Sacrosanctum concilium lembra que o próprio Senhor está presente na Palavra proclamada: “Cristo está sempre presente em sua Igreja, sobretudo nas ações litúrgicas. (...). Presente está pela Sua palavra, pois é ele mesmo que fala quando se lêem as Sagradas Escrituras na igreja” (SC, n. 7). Esta presença é anunciada à assembléia em escuta através do diálogo entre aquele que vai proclamar o Evangelho e o povo. O Senhor esteja convosco (2 Tm 4,22):  O Senhor está aqui, no meio desta assembléia concreta, no meio desta ekklesia, neste momento, no “agora” da celebração. Por isso, não está correto dizer, por exemplo: O Senhor esteja com todos”. Tal saudação enfraquece o significado do momento celebrativo no seu aqui e agora. A resposta dada pela assembléia à saudação presidencial expressa a fé nesta presença do Senhor: Ele está no meio de nós! Nós cremos que foi o Cristo ressuscitado que nos reuniu aqui, neste momento, neste lugar e nesta santa assembléia para ouvirmos a sua voz, para alimentarmos com o pão da palavra a nossa fé e a nossa esperança. Assim, tomada a consciência da presença do Senhor na sua palavra é então anunciado o Evangelho que em seguida será proclamado como Palavra da Salvação. Através deste diálogo exprime-se a importância da proclamação evangélica e se promove a fé dos que participam da celebração (cf. ELM, n.17).

Podemos concluir que tal diálogo, presente também em outros momentos da celebração, faz parte integrante da ação litúrgica, pois exprime a natureza dialogal de toda a liturgia e a ministerialidade da assembléia.  Por isso é bom que seja assim preservado. Deste modo este importante diálogo terá mais força significativa na própria celebração.


Obviamente que nossos encontros, estudos e círculos bíblicos também são marcados pela presença da palavra. Temos certeza que o Espírito do Senhor assiste as nossas reuniões. O Senhor de fato “está no meio de nós” também quando nos reunimos em outros momentos, mas esta presença possui uma outra dimensão, essencialmente diferente daquela litúrgica. A metodologia destes encontros é diferente e isso supõe o modo diferente de aproximação da Palavra que cada grupo pode encontrar para si. Por exemplo, em vez deste diálogo litúrgico poderão ser feitas outras aclamações: “Escutemos a palavra do Senhor que quer iluminar e motivar os nossos estudos”, ou então: “Acolhamos com o coração aberto esta Divina Palavra”, ou então ainda: “para iniciar o nosso encontro ou nossos estudos escutemos a palavra do Senhor narrada por....”. O importante é que sempre seja dado o devido respeito à Palavra do Senhor também nos encontros e estudos.

 

Ms. Pe. Cristóvão Dworak, CSsR.

Bom Jesus da Lapa, 21 de maio de 2009        

 

Bibliografia recomendada

ALDAZÁBAL, J. A mesa da Palavra I.  Elenco das leituras da Missa. São Paulo: Paulinas, 2007.

BUYST, I. A Palavra de Deus na Liturgia.  São Paulo: Paulinas, 2001.

BUYST, I. O ministério de leitores e salmistas. São Paulo: Paulinas, 2001.

DEISS, L. A Palavra de Deus celebrada. Teologia da celebração da Palavra de Deus. Petrópolis: Vozes, 1998.

SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO. Instrução Geral do Missal Romano e Introdução ao Lecionário.  Brasília: Edições CNBB, 2008.

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